Edição 17 - agosto e setembro/2013

A cultura indígena precisa ser respeitada

Região do ABC paulista registra mais de 2.300 moradores autodeclarantes índios. São Bernardo do Campo é a cidade com maior população indígena. Líderança da aldeia Krukutu, Olívio Jekupé, recebe a equipe da Revista O Professor e fala sobre costumes, tecnologia, educação e preconceito

Por Mayra Monteiro

Duas horas de viagem – com direito a travessia de balsa, estrada esburacada, muita poeira e um sol escaldante – separavam a sede do Sindicato dos Professores do ABC, em Santo André, e o distrito de Parelheiros, na divisa com São Bernardo do Campo. Todo o cansaço e desgaste físico enfrentados no trajeto foram superados assim que a equipe da Revista O Professor encontrou a aldeia do Krukutu, avistando os olhares atentos das crianças e adultos, com silêncio e tranquilidade fora da realidade urbana. Enquanto Olívio Jekupé, presidente da Associação Guarani Ne´e Porã, atendia os visitantes, curiosos curumins espiavam o que acontecia na sede da instituição, mas logo corriam assim que notados. A calmaria foi quebrada poucas vezes, ora com a chegada do ônibus escolar, ora com a brincadeira e conversa de mulheres e indiozinhos na varanda. Ali perto, um choro alto desviava nossa atenção, causado por uma garotinha que acabara de se assustar com a mordida de um cachorro com que estava brincando.

Passar o dia na aldeia trouxe, entre tantos conhecimentos, uma imediata conclusão: brancos e índios têm estilos de vidas tão semelhantes e, ao mesmo tempo, distintos. Na proximidade, a primeira surpresa: “Estava no Facebook conversando com um jornalista argentino”, desculpou-se Jekupé pela breve demora em atender nossa equipe. Durante todo o bate papo, um ponto foi intensamente frisado pelo líder indígena: o preconceito. “Queremos intensificar o turismo em nossa região para que todos saibam como funciona uma aldeia. As pessoas devem aprender mais a respeito dos costumes e, dessa forma, acabar com preconceitos e conceitos sem fundamento”, completa. No que diz respeito ao ABC, especificamente, não são apenas os números relacionados aos índios que estão no desconhecimento de grande fatia da população. As condições de vida, a real história indígena e até mesmo a existência de uma aldeia na região completam a lista de insciências. Dados do Censo 2010, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), revelam que São Bernardo do Campo é a cidade com maior número de moradores declarados índios no ABC, com 778 no total. Santo André ocupa a segunda colocação com 575 autodeclarantes índios, seguida por Mauá (448), Diadema (312), Ribeirão Pires (137), São Caetano do Sul (67) e, por fim, Rio Grande da Serra (41), totalizando 2.358. Em São Bernardo, também estão as novas terras demarcadas pela Fundação Nacional dos Índios, a Funai, para a aldeia Krukutu. O também escritor Olívio Jekupé explicou à Revista O Professor que a expansão territorial do povoado ainda não foi concluída, uma vez que aguardam a saída dos atuais moradores.

Aldeia Krukutu
Cerca de 300 pessoas vivem na aldeia Krukutu, em Parelheiros, divididas em, aproximadamente, 40 famílias e duas etnias, Guarani e Guarani Kaiowá. A área ocupada pela comunidade é de proteção ambiental, nas margens da represa Billings, com 25 hectares (sem somar as novas terras). No local, a população tem acesso a um posto de Saúde, um Centro de Educação e Cultura Indígena (Ceci), um campo de futebol, uma escola estadual, além da represa e da ampla área verde conservada. Os visitantes também podem levar consigo livros e artesanatos produzidos na aldeia, que estão à venda na loja da tribo.
Francisca Martins, cacique da aldeia Krukutu, é a responsável pelas discussões políticas da comunidade. A organização do grupo conta, também, com o pajé (líder religioso) e a Associação Guarani, um órgão criado para auxiliar e responder na ausência dos principais líderes. “Uma das nossas exigências é que os funcionários da escola e do posto sejam da aldeia para que possamos, dessa forma, promover a geração de empregos”, esclarece Olívio. Apenas os médicos não são moradores locais, mas a expectativa de Jekupé é investir em educação na tribo para que, no futuro, os profissionais da saúde sejam oriundos da comunidade indígena.
Ainda na questão da saúde, o único posto de atendimento funciona de segunda a sexta-feira, em horário comercial. Quando ocorrem emergências, é preciso se deslocar para o hospital mais próximo, que está a cerca de uma hora de distância. No ponto segurança, apesar do afastamento dos grandes centros, a polícia é solicitada com frequência para realizar rondas nos arredores das terras krukutus, “ainda mais agora com a ampliação das terras, quando algumas pessoas agem de má fé e tentam assustar os índios”, conta o líder.
O sustento na tribo vem do trabalho no posto médico, no Ceci e na escola. “Aqui não vivemos de plantação. Nada do que plantamos, cresce. Por isso que lutamos por trabalho na aldeia, caso contrário, passaríamos mais dificuldades”.

Preconceitos
“Engraçado como as pessoas veem os índios. Se cultivamos nossos rituais, somos atrasados, mas se temos hábitos comuns, como andar de moto, falar ao celular, entrar na internet, por exemplo, as pessoas dizem que não somos índios e negamos nossa origem”. Essa é apenas uma dentre tantas declarações de Olívio para explicar a luta constante da comunidade indígena para quebrar tabus e mostrar fatos reais no que diz respeito ao histórico de luta dos índios no País. Tendo estudado Filosofia na Universidade de São Paulo, Olívio relata outros episódios que ilustram como a visão a respeito da população indígena ainda é distorcida por grupos visitantes. “Não são raros os turistas que nos perguntam se praticamos incesto, realizamos magia negra, sacrificamos animais ou, até mesmo, cometemos o canibalismo. Essas informações não passam de aprendizados vazios”, desabafa Jekupé. Em forma de crítica, o líder fala da versão divulgada em livros e materiais didáticos sobre a vida dos índios. Para ele, a literatura nativa (escrita pelos próprios índios) é a mais indicada para descrever cada passo dado na trajetória da população: “Nas salas de aulas ensinam aquilo que o homem branco julga correto. Nem sempre esses relatos são fiéis à realidade”.
Jekupé segue os esclarecimentos e aponta outro equívoco comum: o de toda etnia indígena ser exatamente igual. Em comparação, o filósofo destaca as especificidades de cada região brasileira indígena e traz essa realidade para a vida na aldeia. “Cada tribo tem seus próprios rituais, hábitos e língua. Na aldeia guarani, falamos guarani; na xavante, fala-se xavante, e na caiapó, fala-se caiapó. Quem acha que índio é tudo igual está cometendo um erro. Somos todos iguais, sim, mas porque não somos inferiores ou superiores a ninguém”. Em sua fala, ele revela o descontentamento ao ver, ao longo da história, os brancos se apropriando de costumes indígenas e, quase sempre, ganhando o reconhecimento por tais criações. Como exemplo dessas “invenções”, Olívio cita a bebida guaraná, o chimarrão, o churrasco, a farinha de milho, a bola de gude, a peteca, a bola, a pamonha, a rede de balanço e algumas composições medicinais. “Tudo isso compõe o rol de engenhos criados por índios. Muitas empresas vêm até nós para tentar descobrir fórmulas e combinações para remédios, mas aqui ninguém fala. Por quê? Porque os brancos usam nossas criações, modernizam-nas e enriquecem, enquanto nós somos esquecidos”, conta o guarani. “Outro exemplo disso é o fumo. Para nós, o fumo faz parte dos rituais sagrados e até as crianças utilizam. Fumo não é o cigarro. Cigarro é a modernização do branco, não nossa”.

Educação, tradição e tecnologia
Principal preocupação do líder guarani, a educação tem recebido atenção diferenciada na aldeia, contudo, ainda precisa de avanços. A escola estadual atende crianças até o 4º ano e as séries seguintes são cursadas fora dali. Kretchu de Oliveira Paula tem 20 anos e há dois é professora na tribo. Na escola, a grade curricular é a tradicional, entretanto as aulas são dadas em português e em guarani. “Escolhi ser professora porque sei das dificuldades que os índios enfrentam para estudar e trabalhar dentro e fora da aldeia. É preciso saber ler, escrever e conhecer um pouco de tudo. Quero ajudar essas crianças”, responde a educadora. “Os alunos aprendem ciências, matemática, geografia, normalmente, mas não deixamos nossas raízes de lado. Ensinamos cantos tradicionais, a história dos antepassados, o valor da amizade e da vida. Ensino, mas aprendo muito mais”, completa a docente que trabalha com o segundo ano.
A sala de aula também é como todas as outras, com crianças conversando, algumas sentadas no chão (por opção), com livros, cadernos, giz e lousa. A implantação é recente no Estado de São Paulo, segundo Jekupé. A criação de escolas indígenas em outros estados brasileiros deu-se em meados da década de 70 e, somente no ano 2000, tornou-se realidade em São Paulo. “Hoje temos a garantia de escola nas aldeias e os professores devem ser nativos, da etnia, e falar a língua local. Tudo isso para que a história não seja distorcida, como ocorre nas escolas das grandes cidades. Lemos em vários livros versões que não condizem com a realidade e isso precisa acabar”, destaca.
Neste ponto retomamos as diferenças e similaridades nos estilos de vida dos brancos e índios. “Aqui as crianças vão à escola, tomam lanche, aprendem, brincam e, nos 30 minutos de intervalos, elas correm até a represa e nadam, quando querem. Isso nós temos o privilégio que a cidade não tem. Essa liberdade faz parte dos nossos costumes”, brinca Jekupé.
E quando o assunto é tecnologia, celulares e internet também são ferramentas presentes na aldeia Krukutu. Os jovens realizam pesquisas e os autores nativos conseguem divulgar seus materiais nesse meio. “Preparamos nossos alunos para que todos possam cursar uma faculdade no futuro e, para isso, acredito que a educação a distância seja a melhor alternativa para nosso povo, uma vez que não precisaríamos sair de nossa comunidade, ficar longe da família, por exemplo. Sabemos que essa é uma realidade comum nas cidades, mas nossa adaptação é mais difícil porque falamos outra língua, temos costumes diferentes, rituais e poder estudar dentro da aldeia é a melhor alternativa”, pondera o guarani.  “A internet auxilia para que possamos contar nossa versão da História que não está nos livros e, também, divulgar nosso trabalho. Graças a ela, tive materiais publicados na Itália e tenho contato com líderes de diversos locais”, conta Olívio. “A tecnologia precisa ser usada com inteligência e para o bem. A internet facilitou nossa vida, ainda mais porque não precisamos nos afastar da tribo para resolver algumas questões”.
Ao ser questionado sobre os hábitos de divertimento, outra surpresa. Olívio nos fala que o forró é popular na aldeia e procura no celular uma das canções mais ouvidas na tribo. Acreditem se quiser, mas, nesse momento, nossa equipe é surpreendida com a versão guarani de “Ai se eu te pego”, de Michel Teló, exaustivamente tocada nas rádios brasileiras e regravadas em dezenas de idiomas. “Os índios não deixarão de ser índios se usufruírem das tecnologias, mas, sim, se deixarem de lado os rituais e costumes”, acredita Jekupé.

Reivindicações e expectativas
Em 1988, quando Olívio entrou na primeira faculdade, eram raros os casos de índios cursando ensino superior em decorrência das dificuldades de adaptação e do pouco apoio da Funai. De lá para cá, a população indígena lutou para fazer valer seus direitos e, na visão de Jekupé, essa luta desencadeou a discussão pelas cotas em universidades. “Queremos uma boa educação para nossos jovens, saúde e condições para enfrentar o mercado de trabalho”.
Sobre seus anseios para a população indígena em todo território nacional, o líder desabafa: “Somos rotulados como selvagens, mas o branco precisa entender que nossos costumes não são comuns para a sociedade de modo geral. Queremos difundir o turismo em nossa região para que a cultura indígena seja conhecida e respeitada”.
Os Krukutus aguardam avanços nas demarcações da nova área em São Bernardo e contam o que pretendem fazer com a conquista. “Dizem que não vamos fazer nada com o novo espaço e realmente não vamos. Não vamos desmatar, não vamos destruir. Vamos preservar a floresta e conservar o rio. O novo território proporcionará liberdade para as famílias, para procriação dos animais, para o aumento da fauna e da flora. A floresta tem muito a dar para nós, como a saúde a vida. Sabemos cuidar do que é nosso”, finaliza Jekupé.

Visita aos Krukutus

O Sindicato dos Professores do ABC quer estender aos associados a experiência vivida pela equipe de O Professor. Entre em contato conosco no email imprensa@sinpro-abc.org.br para que possamos formar grupos de visita à aldeia Krukutu.

Em oliviojekupe.blogspot.com.br você pode ler novidades dos índios, no blog mantido por Olívio Jekupé.


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