Edição 17 - agosto e setembro/2013

De que forma você vê a imagem da mulher na mídia?

A escritora e psicóloga Rachel Moreno, especializada em Sexualidade Humana e Dinâmica do Movimento Expressivo, explica como a imagem da mulher nos meios de comunicação tem evoluído, porém, negativamente, afinal, segundo ela, a mídia é responsável por manipular e induzir um ideal de beleza inatingível, artificial e mercantilizado, fazendo com que algumas delas comprometam a própria saúde buscando um modelo estereotipado de beleza  ideal


De que forma a imagem da mulher tem sido tratada no Brasil? É muito diferente dos outros países?
Rachel – Nos outros países está acontecendo algo engraçado, na Itália, por exemplo, houve uma manifestação nas ruas expondo que era um absurdo mulheres dançando com pouca roupa no fundo do palco, independentemente do assunto tratado. E que as jovens italianas estariam achando que essa pode ser uma perspectiva profissional de sucesso, e este era o motivo da manifestação,  contra a utilização do corpo das mulheres na programação televisiva, assim, estavam protestando contrariamente a pauta do movimento organizado. No Brasil, nos deparamos com essa situação em todos os programas, inclusive nos dominicais, e isso não causa estranheza ao público feminino e masculino. Nos acostumamos tanto que quase nem percebemos.
Em Portugal, estão colhendo assinaturas com a intenção de modificar a imagem da mulher brasileira naquele país, que é mostrada como uma mulher sensual e fácil, sempre disponível. A impressão que tenho é que  Europa e Brasil se assemelham nessa questão, mas aqui essa situação está naturalizada, pois a imagem da mulher é sempre associada à venda de algo ou mesmo oferecida como brinde: jovem, magra, branca, cabelo claro, liso e loiro, esvoaçante. Porém, a verdadeira imagem da brasileira é totalmente diferente, é a mistura de branca, negra e índia, com as ancas mais largas, os seios menores do que as americanas, como podemos perceber pelo modelo de beleza que adotamos e divulgamos, é a de Gisele Bündchen, que muito se afasta da verdadeira imagem da brasileira.
Em termos de conteúdo de programação, percebe-se que as mulheres estão com uma roupagem de século XXI e com valores do século XIX, em que é bem comportada, se casa, tem muitos filhos, constitui família e é feliz para sempre. A situação para a mulher brasileira está complicada, pesquisas internacionais mostram que de 10 países, por exemplo, o Brasil é aquele no qual a mulher está com a autoestima mais rebaixada, mais insatisfeita com a própria aparência, mas disposta a qualquer sacrifício para melhorar e atingir a imagem ideal, que é vendida o tempo todo, de maneira sutil, sendo associada à felicidade, e quem não quer ser feliz?

OP – Há diferenciação da mulher na televisão, campanha publicitária, entre outros veículos de comunicação ou essa imagem é a mesma em todos os lugares?
Rachel – Ela permanece da mesma maneira. Em revistas masculinas, obviamente, você tem a mulher sem roupa; nas femininas receitas de beleza. Em termos de análise, para conhecimento, a Unesco faz a cada dois anos, uma pesquisa internacional para ver como está a imagem da mulher nos meios de comunicação e, no Brasil, estamos sempre sub-representadas enquanto especialistas ou autoridades em algum assunto, e a figura feminina, nos espaços chamados “sérios”, como o telejornal, aparece sempre associada ao papel de vítima. As mulheres estão em todas as profissões, ocupando todos os cargos e níveis, sendo a maioria da população, então, de fato, a população feminina não tem o espaço que merece.
Além disso, há categorias profissionais predominantemente femininas onde, normalmente, o salário é menor, como ocorre com professores, que estão nas ruas pedindo justiça. O mesmo acontece com as jornalistas, que estão começando a ser maioria nas redações e, também estão com os salários rebaixados.

Livro de Rachel Moreno

OP – Em que época a imagem delas começou se transformar esteticamente?
Rachel – Como a televisão é comercial, ela precisa seduzir o seu público para seus anunciantes, então a medida em que um anunciante compra um espaço, não só coloca seus anúncios de uma maneira compatível com seus produtos,  como acaba de alguma forma contagiando o conteúdo, de modo a compatibilizá-lo com o que ele quer vender. Ao longo do tempo a imagem da mulher vem se modernizando, pois estão no mercado de trabalho, são independentes financeiramente,  sustentam suas próprias vontades, porém, ainda se deparam com a armadilha da fragilidade.

OP – Como a legislação tem tratado a questão de exposição extrema?
Rachel – Ela não tem tratado. Há países da América Latina que avançaram construindo marcos regulatórios nas fontes de informação, que respeitaram sua pluralidade e diversidade social.

OP – De que forma essa situação poderia melhorar?
Rachel – Apresentar a diversidade é uma possibilidade, isso quer dizer, criar uma diversidade, pois existem mulheres jovens, velhas, magras, com sobrepeso, brancas, negras, índias, e essa variedade precisa ser mostrada, valorizando a diversidade da população. E como as mulheres não pensam todas do mesmo jeito, há as de direita, esquerda, conservadoras, que querem ter filhos, as que não querem nenhum, e isso também não está sendo mostrado, falta portanto pluralidade, respeito às diversas formas de pensar. Finalmente, pelo fato de não serem apresentados, os problemas da mulher contemporânea não estão sendo discutidos. Quando a mídia disponibilizar isso, automaticamente a questão se naturaliza.

OP – Quais são as consequências desses estereótipos criados? Eles influenciam de que maneira?
Rachel – O resultado acaba sendo a autoestima rebaixada e a busca insaciável e eterna pela beleza, através de produtos que acabam não entregando o que prometem. O que acontece quando uma geração de mulheres tem a autoestima rebaixada? Essa população se conforma com uma série de situações impostas, como salário baixo, profissão que não dá prazer, entre outras situações. Por esse motivo há meios de comunicação ousando mostrar as mulheres de uma maneira diferente para assim, vender melhor o seu produto.
A legislação não impõe nada, por isso, o movimento feminista está discutindo essa situação há um bom tempo, propondo um novo marco regulatório, que abranja o controle social da imagem na mídia de modo a não reproduzir e realimentar estereótipos e preconceitos. Foi inclusive esse fato que me motivou a escrever o livro “A Imagem da Mulher na Mídia”, buscando no exterior informações sobre o controle social da mulher em suas mídias e como eles a defendem.

OP – No dia 3 de maio o País comemorou o “Dia Mundial da Liberdade de Imprensa”, mas até que ponto deve realmente ser comemorado?
Rachel – Acredito que não devemos celebrar, pois a liberdade existe para as empresas, não havendo critérios rígidos para concessão, que algumas vezes não passa pelo critério da ética, exemplo disso, é que rastreamos o ranking dos piores programas e percebemos que o Governo é o seu maior anunciante.

OP – E o que pode fazer com que um programa de qualidade duvidável saia do ar?
Rachel – Durante a campanha pela ética na televisão recebíamos denúncias dos telespectadores e a cada mês ou bimestre analisávamos por meio do site e telefone, qual era o programa mais denunciado, em seguida, assistíamos durante três vezes aquele programa para avaliar a consistência das acusações. Caso positivo, a equipe entrava em contato com a emissora, evidenciando que o programa era o pior do ranking em termos de baixaria. Se mesmo assim ela não se mobilizasse, denunciávamos  ao anunciante daquele programa, indagando se aquele era o valor que a empresa gostaria de agregar à sua marca. Algumas vezes a mudança era conquistada e, quando não conseguíamos, a denúncia era levada ao Ministério Público Federal.

OP – A degradação da mulher pode ser revertida? De que forma?
Rachel – A principal maneira é mostrar a pluralidade e a diversidade, pois apresenta a realidade e, principalmente, não alimenta os estereótipos. A mídia, por exemplo, banaliza a violência, aliás, se tirar sexo e violência dos filmes ou de algumas programações não sobra praticamente nada. E o fato de banalizar ou espetacularizar faz com que a população se acostume com certo nível de violência. Na Espanha e na Argentina existe uma legislação de controle da mídia para impedir que a violência  seja fomentada, e necessariamente apresentada, devem apresentá-la de forma a inibí-la socialmente. Em outros países, a legislação insiste que, na programação as mulheres  apareçam assumindo todos os seus papéis, pois somente dessa forma o índice de violência e de preconceito pode regredir. O respeito à diversidade também pode contribuir para a diminuição da violência em todos os níveis e segmentos sociais.

OP – Como você observa a banalização dos jovens por meio das músicas?
Rachel – Tal interferência é um pedaço pinçado dentro de uma cultura mais ampla, a qual a mídia resolveu dar um destaque. As meninas gostam de determinados estilos musicais, que ditam normas inclusive de vestir e não sendo contestadas pelos familiares essa situação vai se naturalizando uma vez que não lhes é oferecida uma riqueza cultural mais abrangente para que possam escolher o melhor e dar espaço para toda a diversidade.

OP – A moda Plus Size pode ser uma maneira de mostrar a diversidade da figura feminina?
Rachel – Acredito que sim, dentro de um determinado contexto, por outro lado, a população está engordando e a obesidade passou a ser um problema no Brasil, diferentemente da fome, que já não é mais. Alguns anunciantes de ponta começaram a focar esse segmento, por exemplo, a Dove tem um sabonete que pode ser vendido para qualquer pessoa ou tipo de corpo, não precisa ser especificamente para o público Plus Size, mas, assim mesmo, começou a mostrar mulheres mais cheinhas, e foi um dos pioneiros. Assim, é preciso prestar atenção em quanto essa diversidade realmente existe ou se a mídia foca apenas modelos inatingíveis.

OP – De que modo as pessoas podem ter acesso à Legislação?
Rachel – Na verdade não se trata só de conhecer nossos direitos, mas também de ampliá-los. Os que existem não estão sendo obedecidos. O marco regulatório da mídia data de um tempo em que não havia satélite e internet. A decisão do que vamos assistir está nas mãos de uma fatia sóciocultural que monopoliza  a programação, decidindo o que devemos ou não assistir, impondo seu pensamento e exercendo um controle social que não faz sentido; ou seja, a mídia deveria servir para produzir e veicular informação no intuito de que o telespectador, leitor e o público em geral deixem de ser dominados por essas fontes de comunicação que impedem a formação de sua própria opinião.

OP – E os homens, como eles são tratados na mídia?
Rachel – O público masculino também está sendo, de certa forma, dominado. Há algum tempo, eles perceberam que as mulheres estão em todos os lugares, inclusive nos espaços de trabalho, ocupando entre outros, cargos gerenciais e atribuiram isso aos cuidados físicos delas. Decidiram fazer o mesmo, e hoje representam um terço de um mercado promissor, que cresce rapidamente. Com relação à mídia, ela também reproduz o ser homem, porém, eles não são apresentados chorando em frente às câmeras ou expressando suas emoções de alguma maneira.

OP – Porque a mulher está tão presente na mídia, em um espaço tão grande?
Rachel – Porque decide praticamente tudo em termos de consumo. Ela compra a fralda no neném, cueca do marido, comida, cremes para ela, ou seja, em média, 80% das decisões concetra-se na mulher. Além disso, ela está começando a decidir também a compra do carro. Por outro lado, o homem compra determinados produtos porque quer ter sucesso com as mulheres. Então, ela é utilizada nos dois sentidos, pelo seu poder na decisão em termos de consumo e porque é objeto de desejo e ajuda a vender.

OP – A televisão é um meio de educar?
Rachel – A televisão, bem como outros meios de comunicação, exerce uma função educativa informal, poderosa, sedutora com as imagens, faz sonhar, mas nós ainda temos os espaços de educação formal, onde a família e a escola atuam. Os professores são fundamentais para provocar e promover discussões imprescindíveis quanto ao respeito à diversidade e pluralidade sóciocultural, focando tanto o ideal de beleza, em que meninas, desde os oito anos de idade, já sentem vontade de mudar alguma coisa em seus corpos, influenciadas pelo consumo, como inclusive com relação aos valores que ela veicula. Desta forma, é necessário cuidar para que a mídia não veicule anúncios equivocados que possam influenciar negativamente as crianças, pois elas acreditam prontamente no que é mostrado, e levam tempo até perceber qual a diferença entre uma propaganda e a realidade. Assim sendo, é função da escola promover espaços que desenvolvam uma visão crítica da mídia e dos modelos que são impostos, discutindo as diferenças, resgatando direitos e deveres focando a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

OP – De que forma os professores poderiam abordar esses assuntos com seus alunos?
Rachel – Tratar de direitos, questão de gênero, discutir a sexualidade, de forma adequada à idade das crianças é fundamental.
Explorar um texto, um programa de televisão, livros infantis, pode fornecer condições para que a criança se aproprie  de personagens como a Mafalda, Luluzinha e outras figuras femininas que existem e são interessantes, para formação do repertório cultural de uma geração que trabalhe em prol de uma sociedade mais inclusiva e igualitária.

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