Edição 17 - agosto e setembro/2013

Acessibilidade e os desafios da comunidade surda

Carlos Ayrton Sodré, diretor e professor do curso de Libras do SINPRO ABC, fala sobre as dificuldades de aprendizado de um deficiente auditivo e relata sua experiência como docente

“Quando entrei na sala e vi muitos alunos usando aparelho auditivo fiquei muito emocionado, chorei de emoção e percebi que eu não era o único a ter problema com a surdez”

   

 

“Vou falar sobre a comunidade surda. Dirijo-me a eles com muito conforto porque estão aqui do meu lado”, inicia Carlos Ayrton Sodré, diretor do Sindicato dos Professores do ABC e professor do curso de Libras, realizado há dois anos pela entidade. Sodré fala com propriedade do assunto “ensinar e aprender na deficiência auditiva” pois é educador e desde os dois anos de idade convive com a perda da audição. Nessa conversa, o professor fala sobre incluir, ensinar e superar as dificuldades.

Revista O Professor – Conte-nos um pouco sobre o histórico de sua deficiência auditiva. Ela foi desenvolvida na infância, congênita ou acidental?

Carlos – Aos dois anos de idade contraí pneumonia, febre, gripe e muitas tosses. Tomei uma dose forte de antibióticos e me afetou a audição. Perdi 83% da audição de ambos os ouvidos, mas tinha esperança de recuperá-la.

Fiz tratamento com fonoaudiólogos para trabalhar a fala por meio da leitura labial, dos dois aos oito anos de idade.

Como foi sua infância, no convívio com a família e na escola?

Fui pouco estimulado. Quando perdia alguma piada, me passavam para trás. À minha irmã mais velha era dada maior atenção, pois achavam que eu não precisava de muita ajuda. Sempre que não entendia alguma coisa, me diziam “espere, depois contamos”, mas esqueciam.

Aos sete anos entrei no ensino fundamental regular, mas não estava preparado para acompanhar as aulas por meio de leitura labial. A adaptação foi péssima e tive muitos obstáculos para compreender matérias e socializar com amigos. Repeti a primeira série três vezes. Tive o apoio de uma professora, que teve paciência e me incentivou.

Aos nove anos, coloquei meu primeiro aparelho auditivo e, dali para frente, não repeti mais. No começo fiquei envergonhado, já que os olhares para mim, mesmo sendo curiosidade dos outros, me soavam como início de um preconceito que iria enfrentar. Fui apoiado pelos professores e, devido a uma série de provocações e discriminações, fui briguento.

Conclui o ensino médio e fiz vestibular para Medicina e Educação Física. Consegui a licenciatura em Educação Física e, logo no primeiro ano da faculdade, já estagiava na área. Me especializei, trabalhei como técnico de vôlei e fui campeão em times como São Paulo, Palmeiras, Clube Paulistano e Aramaçan.

Ingressei como professor na rede Sesi/Senai, há 24, onde leciono até hoje, e, há 18 anos, atuo na Escola Especial Anne Sullivan, em São Caetano. Quando entrei na sala e vi muitos alunos usando aparelho auditivo fiquei muito emocionado, chorei de emoção e percebi que eu não era o único a ter problema com a surdez. Comecei a conhecer outros surdos aos 40 anos. Sempre usei os cabelos longos, para esconder o aparelho.

 A partir daí, cortei os cabelos, fiquei mais livre e aberto com os dois mundos, depois de 30 anos escondendo a minha imagem de surdo, por vergonha.

Hoje me sinto realizado profissionalmente e pessoalmente. Sou professor de Educação Física, de Libras – área em que me preparo para o mestrado -, tenho Pós-Graduação em Educação Especial e, como educador, sinto uma enorme satisfação em saber que há pessoas que colaboram de forma significativa para a melhora do nosso desempenho em comunicação.

Como o professor avalia a acessibilidade nas escolas?

À escola cabe o dever de contribuir na qualificação dos profissionais e dar acessibilidade aos alunos não somente no que diz respeito à educação, mas, também, à inserção social e cultural.

As instituições de ensino ainda estão trabalhando para que a inclusão escolar seja ampliada. A inclusão educacional ainda gera discussões, já que, nem sempre, há recursos e preparação da escola para receber os estudantes com necessidades especiais. Não basta ter o espírito inclusivo, é preciso que o professor esteja preparado para receber os deficientes. Existem exercícios e atividades que incluem as crianças, mesmo em escolas onde haja outros alunos sem deficiências. Acredito que a inclusão escolar acontece aos poucos. Por isso, a falta de estrutura das escolas e de preparação dos profissionais não pode servir de barreira para deixar o processo ainda mais longo. Tudo que se faz pela educação inclusiva é pouco pela dimensão do Brasil, mas as ações estão aumentando. O importante é que o deficiente frequente a escola.

Qual o principal erro da família, da escola e do professor quando o assunto é inclusão? Qual função de cada uma das partes no processo de inclusão?

A família não pode deixar de dar atenção ao filho. As dificuldades financeiras, por exemplo, não podem ser barreira. Ensinar um surdo a falar é trabalhoso e a família precisa ter paciência e dedicação para isso.

Na escola, as principais falhas são falta de infraestrutura, falta de preparo e capacitação profissional e a discriminação social. As equipes pedagógicas devem trabalhar para que a inclusão seja ampliada. Os professores devem ter todas as informações sobre o aluno com distúrbio ou deficiência. É preciso trabalhar o que é bom e o que é ruim no deficiente para que ele tenha um equilíbrio de suas atividades. 

Professor de Libras, Carlos Ayrton Sodré, fala das dificuldades na sua infância

  

Hoje não acredito que haja resultado eficaz na escola inclusiva, pois essa instituição somente será inclusiva quando atender às necessidades de todos os alunos, independente das especificidades de cada um.  

Dentro da escola, existem diversas disciplinas que podem ser adaptadas para os alunos especiais. Na informática, o computador possibilita a realização de diversos trabalhos e disponibiliza diversos recursos que contribuem no aprendizado. Em educação artística, as atividades podem servir como arte-terapia, utiliza a simbologia e a cromoterapia como base dos trabalhos de manifestação da criatividade, estimula o psico-cognitivo e equilibra o emocional. A música contribui com a sensibilização e criação, favorecendo fatores psicológicos, físicos e afetivos, além de despertar boas emoções e possibilitar o prazer em tocar instrumentos.  

Na área esportiva, a educação física possibilita benefícios à saúde, seja por meio de jogos ou danças. Mas é preciso estar atento para a adaptação da atividade para cada tipo de deficiência.  

Como avalia a Legislação brasileira no que diz respeito especificamente ao ensino de Libras? O que tem de positivo e o que precisa avançar na lei?  

A Língua Brasileira de Sinais é muito mais do que uma alternativa de comunicação dos surdos brasileiros. Ela é um direito conquistado pela comunidade surda de se comunicar em sua própria língua materna. Esse direito lhes foi assegurado com o advento da Lei Federal 10.436, de 24 de abril de 2002, que reconheceu oficialmente a Libras como o principal meio de comunicação da comunidade surda em todo território brasileiro.  

A Lei da Libras foi regulamentada por meio do decreto 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Com isso, ampliou-se a exigência por parte das comunidades surdas, no sentido de que a sociedade, como um todo, respeite os direitos da pessoa surda de estar incluída socialmente, sem ser forçada a utilizar a língua oral, que é própria dos ouvintes.  

Nos últimos 20 anos, devido às pesquisas linguísticas e aos movimentos de reivindicação dos surdos pelo direito de usar a língua de sinais, observa-se uma preocupação crescente dos educadores em aprender a Libras e propiciar condições para que os alunos também o façam.  

Nessa época, portanto, em que a língua de sinais vem sendo reconhecida por uma comunidade cada vez maior, a Legislação traz contribuições valiosas para a divulgação da Libras e, mais do que isso, para o aprendizado da mesma.  

Após tantos anos de luta e trabalho, conseguimos realizar nosso sonho: ensinar Libras num curso básico de capacitação dos professores, que viabiliza a formação continuada de docentes para adotar a promoção da acessibilidade como um dos eixos de transformação da gestão e da prática pedagógica para uma educação inclusiva.  

O acesso ao conhecimento, ao exercício da cidadania e ao trabalho são um direito dos surdos. E é uma tarefa deles e de toda a sociedade, juntos, a sua efetivação. Com isso, esperamos contribuir com a melhor compreensão da Libras, que está longe do ideal.  

Nesse cenário, como o professor avalia a iniciativa do SINPRO ABC em oferecer o curso de Libras aos docentes da região?  

A primeira turma foi formada por meio de atividades simples, atraentes e divertidas. O curso proporciona o aprendizado do alfabeto manual e dos sinais, de forma prazerosa. Os alunos puderam, com muito esforço, ter o conhecimento da introdução do vocabulário de Libras, e o curso auxiliou na ampliação e fixação do uso dos sinais. Agora, eles estão prontos para uma comunicação básica com a comunidade surda. Nesse sentido, há que se ter clareza de que a comunicação que relaciona vocábulos e sinais se constitui em recurso a ser usado com muito cuidado e nunca com objetivo de aprendizado, mas como forma divertida de vivenciar a Libras. No entanto devem ser contextualizados, uma vez que, em uma concepção discursiva, o sentido de um vocábulo é determinado pelo contexto linguístico em que ele ocorre. Esse fato não invalida o trabalho, desde que se tenha clareza das contribuições que ele possa dar.  

À frente do curso espero poder contribuir para uma renovação na educação, para que crianças surdas brasileiras possam ter, assim como em países da Europa e América, oportunidade em aprender, também, com seus professores, a Libras.  

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Uma resposta para “Acessibilidade e os desafios da comunidade surda”

  1. pedro magalhaes disse:

    oi sou interprete da LIBRAS nas escolas estaduais do ceara gostaria de ter contado com o senhor para trocamos experiencias e aumentamos nossos conhecimentos obg

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