Santo André - São Paulo - Brasil
Edição Nº 11 - Jan/fev/março de 2009
 
Blog SINPRO ABC
 
 
 
// EDUCAÇÃO
 

Ensino além da lousa, do lápis, da caneta...
 
Desempenho em sala de aula pode ser potencializado com atividades corporais

Imagem: STOCK.XCHNG

A receita é a mesma há anos. Alunos sentados nas carteiras e os focos devem ser somente a lousa e o caderno. Aquele que resolve levantar, caminhar pela sala ou fazer qualquer outra coisa “fora da cadeira” certamente será repreendido com um sonoro “não atrapalha, sossega, senta e presta atenção na aula!”.
Parece que o modelo das escolas julga que o aluno é composto somente pela cabeça (e mãos para copiar e escrever). E, assim, perguntamos: onde fica o corpo nessa história? A atriz e professora de dança e teatro, Letícia Olivares, faz um importante alerta para os professores e administradores de escola: “Infelizmente, o modelo de alunos estáticos, sentados e olhando para frente ainda é um modelo de disciplina considerado ideal nas salas de aula. Porém, é prejudicial tanto para a apreensão do conhecimento, quanto para ao posicionamento corporal dos alunos, que muitas vezes não adotam uma postura correta (apoiar-se sobre os ísquios, manter a coluna ereta, apoiada no encosto da cadeira, pés apoiados no chão)”.
Por outro lado, o que podemos observar são alunos cada vez mais sedentários, aficionados por vídeo games e computadores, que aproveitam as horas vagas para fazer... nada! Com esse sedentarismo, outros problemas também surgem e podem comprometer a saúde e o desempenho escolar dos estudantes. “Os alunos estão mais sedentários e com isso os problemas vão aparecendo, como, por exemplo, a obesidade”, destaca a professora de Educação Física, Samantha Freitas. “Mas ainda podemos perceber que a parte motora das crianças está cada vez mais prejudicada, pois atividades que eram praticadas antigamente, como correr, saltar e andar de bicicleta na rua, hoje, já não acontecem com tanta frequência”, completa Samantha.

 
O esporte na educação
 

O sentimento de liberdade é uma boa forma de estimular os alunos ao aprendizado. Agregar movimentações corporais aos ensinamentos traz mais descontração às aulas e o conhecimento vem juntamente com o prazer de uma brincadeira.
“Os professores podem otimizar o tempo dentro da sala, propondo uma boa espreguiçada, junto com bocejos sonoros, para ‘acordar’ o corpo antes do início da aula. Também deve contar com sua sensibilidade e propor pausas quando os alunos começam a ficar inquietos nas cadeiras, fazendo com que levantem e façam movimentos de balanço com os braços soltos em torno do corpo, espreguicem novamente e voltem a sentar”, sugere a atriz e professora Letícia Olivares.
Para a Samantha, os esportes também funcionam como uma ótima ferramenta para auxiliar na fase escolar, uma vez que aumentam a consciência corporal de quem os praticam. “A concentração e a destreza, ambos trabalhados com esportes, são habilidades que a criança levará para seus aprendizados futuros”, explica a profissional da Educação Física, “por exemplo, para escrever, é necessária uma coordenação fina que o esporte auxilia a desenvolver. Sem falar na concentração, fundamental para um bom aprendizado”.

Com atividades esportivas, a postura também será corrigida e, além do benefício escolar, trará melhoras na saúde dos alunos. Mas cuidado: para cada fase de desenvolvimento motor, há um tipo de exercício recomendado. “É preciso respeitar a faixa etária e o desenvolvimento individual de cada criança”, ressalta Samantha, “aos pais e professores, cabe destacar que não devem comparar as crianças, exigindo que todas apresentem os mesmos resultados, pois cada um tem seu tempo para aprender, sua individualidade”.
 
Atuando na sala de aula
 

Com criatividade, as artes cênicas também são ferramentas que podem ser exploradas dentro do ambiente escolar. “A contribuição das artes cênicas implica em um trabalho sobre potencialidades, ou seja, o que cada um tem como potência a ser despertada e trabalhada”, comenta Letícia, “isso gera apropriação de si, maior autoconfiança e autoestima, habilidades de comunicação, percepção sensorial, agilidade física e mental, posicionamento ético, desenvolvimento de percepção estética, capacidade de trabalho em equipe, de liderança, de improvisação, de empatia, entre outras que refletem em um indivíduo/cidadão mais consciente das relações possíveis entre si e o mundo e de seu papel na sociedade”.
Com o teatro, os alunos vivenciam experiências que contribuirão nas formações acadêmica e social da cada um. Isso ocorre porque a arte refina conceitos de interpessoalidade, trabalho em equipe, habilidades motoras, melhora na dicção, oratória, entre outros.
Para os professores e outros trabalhadores, a teatralidade também tem muito a contribuir na desenvoltura durante a execução das atividades profissionais. Letícia Olivares apresenta algumas declarações de diversas pessoas que, de alguma forma, atrelaram os conceitos aprendidos em aulas de teatro com a rotina de trabalho.

 

“Aprendi a prontidão, a disciplina, o silêncio e o riso na hora certa. Tive ciência do quanto vivemos o dia-a-dia sem estarmos em cena, realmente. O despertar e a consciência foram os resultados imediatos dos exercícios que foram desenvolvidos, e não desaprenderei mais” - Kátia Regina R. Martin, administradora de empresa

“O teatro abriu muitos caminhos na minha vida particular e profissional, como soltura corporal, criatividade, alegria, amizade, cumplicidade, reconhecimento e descontração”

- Cristina Saghy Kassab, professora do Ensino Fundamental

 
Sugestões
 

Atendendo a pedidos da Revista O Professor, a atriz e professora, Letícia Olivares, dá algumas sugestões de atividades que os professores possam aplicar durante as aulas e transforma-las em momentos divertidos e mais proveitosos.

  • Jogo rápido de sentar e levantar: Pode ser articulado com o conteúdo da matéria trabalhada, como por exemplo, em uma aula de Português, verbos são o comando para levantar e substantivos para sentar. Sentar quando as afirmações forem corretas e levantar nas incorretas na aula de História, Geografia ou outras disciplinas;
  • Debates em círculos, com os alunos sentados em disposição diferenciada, como no chão;
  • Representação teatral para explicação de passagens históricas;
  • Para a socialização, em fila indiana, os alunos massageiam as costas e nuca uns dos outros, trocando de lado ao comando do professor. Essa atividade promove o toque e quebra de barreiras. Com adolescentes, esse tipo de atividade depende muito da habilidade do professor em conduzir, pois nessa fase, as brincadeiras maliciosas servem de proteção para o contato físico. Como alternativa, pode-se aplicar jogos que utilizam conceitos cooperativos, como levantar e falar em alto e bom som, uma qualidade de alguém, a classe tenta adivinhar quem é, e assim sucessivamente, até todos terem dito alguma qualidade dos colegas. Também, pode-se pedir que a pessoa demonstre corporalmente as qualidades que foram listadas;
  • Para ansiedade, nada melhor do que respirações profundas. O professor pode sugerir que os alunos fechem os olhos, coloquem as mãos sobre a barriga e tentem empurrar as mãos com o ar levado até o baixo ventre, procurando um preenchimento de ar de toda a caixa torácica e não apenas do peito;
  • Para desenvolver uma abordagem solidária, pode-se vendar os olhos de grupos de cinco alunos e outro, sem venda, ficará responsável por guiar o grupo organizado em fila indiana, em deslocamentos pelo espaço, cuidando para que ninguém se machuque. Todos devem passar pela experiência de guiar e ser guiado;
  • Mais sugestões podem ser encontradas nos livros de Viola Spolin, como Jogos Teatrais na Sala de Aula.

Mas para que o bom resultado seja observado, Letícia alerta: “é preciso que o professor também tenha uma percepção corporal de si e dos outros, e perceba que o corpo não é uma máquina, mas sim um sistema que está o tempo todo interagindo com o ambiente, com as condições climáticas, com o humor, enfim, é uma presença viva e interativa e não um robô condicionado a falar na frente da lousa ou ficar sentado, estático e ouvindo, no caso dos alunos”.

 
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