Seguir na marcha de abertura do Fórum Social Mundial, sob a chuva abençoada – puro suor da Amazônia – acompanhando tantas cores, tantos rostos, tantas línguas e sotaques, tantas lutas, tantos sonhos e utopias... foi catártico.
Perceber as contradições irreconciliáveis, a mesquinharia de alguns partidos arautos do “farinha pouca, meu pirão primeiro”, os oportunismos de última hora, a arrogância infantil dos que creem sua luta superior às demais... foi decepcionante.
Ouvir as grandes vozes das grandes mulheres, dos grandes homens, que, seguindo a orientação de Sartre, elegeram uma bandeira e descruzaram os braços, desceram dos muros das teorias para juntar mãos militantes na construção do outro mundo possível... foi catártico.
Ouvir asneiras dos que diminuíram o Fórum como “ninho dos desocupados”, “mero celeiro de hippies e rebeldias anacrônicas” ou, ainda pior, perceber que há certa classe de “militontos”, que vomita ecologismos e socialismos, mas só pratica o hedonismo e o proselitismo... foi decepcionante.
Conhecer a Belém dos pescadores veneráveis, dos vendedores simpáticos do Ver-O-Peso, das bruxas de encantamentos coloridos, da juventude de iaras e botos, do carimbó, do tacacá, da maniçoba... foi catártico.
Descobrir que, ao se preparar para o Fórum, os poderes da cidade sumiram com mendigos, vira-latas e urubus (sabe-se lá o que fizeram a eles), sem falar na repressão à população pobre durante o Fórum, impedida de participar pela taxa de 30 reais ou pela borracha da polícia... foi decepcionante.
Presenciar tantos povos indígenas reunidos e, mais do que isso, organizados. Vê-los passar durante a marcha, com seu colorido, seus movimentos, seus passos, seus semblantes. Tudo próprio e original como toda cultura original... foi catártico.
Presenciar a vexaminosa postura dos que se digladiavam para tirar uma foto ao lado de um índio, como se o mesmo fosse um boneco da Disney, evidência da tamanha distância que separa brasileiros de brasileiros nativos, sem falar na demora da organização do Fórum em terminar a tenda dedicada aos índios (deveria ter sido prioridade)... foi decepcionante.
Ver a história arquitetônica da cidade, a Basílica de Nazaré, os casarões, o centro velho, as vielas históricas, as mangueiras centenárias, o Forte do Castelo, a Casa de 11 Janelas... foi catártico.
Ver a mesma história corroída e esquecida, com rachaduras tecidas pelo tempo ou reformas (mal) realizadas por mãos inábeis... foi decepcionante.
Mas difícil mesmo é descrever o maior misto de catarse e decepção a que se poderia chegar nesse importante evento:
A catarse das vozes dos povos, os matizes de suas lutas: Indígenas, Quilombolas, Sem Terra, Sem Universidade, Marcha das Mulheres, Povos Sem Estado, GLBT’s, Palestinos, Periféricos, Atingidos Por Barragens, Igrejas, Defensores dos Animais, Trabalhadores e Sindicatos... mas, ao apurar ouvidos e olhos, em busca de uma voz unânime, de uma cor predominante, de uma ideia geral que unisse tantas lutas dissonantes... a decepção de não encontrar nada... Ou apenas a musa frágil (porém musa!) do lema: “Um Outro Mundo É Possível”.
Nem mesmo com relação ao mote do Fórum de Belém – a Amazônia –, há consensos visíveis: existem os que defendem o paraíso absolutamente intocável, contra os que preferem o estudo sistemático para proveito da própria região e da ciência, em outras palavras, a exploração sustentável. Também há quem fale em patrimônio da humanidade, mas contra estes se erguem as vozes de latino-americanos que bradam: “A Amazônia É Nossa”, chamando, dessa forma, atenção para a nossa responsabilidade frente ao uso/preservação desse fantástico bioma.
Mas será que consensos são possíveis nesse universo de ideias multicores? O fórum clama: “Um Outro Mundo É Possível!” e a sociedade, meio cética, meio apática, cruza os braços, olha de soslaio, e pergunta: “Qual”? Confesso que eu mesmo fui a esse Fórum Social, o primeiro da minha vida, com o intuito de buscar respostas. E eis que retorno cheio de decepções... e catarses, mas resposta nenhuma.
Acontece, porém, que também encontrei muita gente tentando, ao seu modo, fazer um outro mundo possível... índios que vieram exigir saúde ou mostrar e ensinar para seus “parentes” projetos de reflorestamento, jornalistas que ainda acreditam no poder da informação para a difusão de novas ideias e ideais, comunidades e movimentos sociais que, de diversas maneiras, criaram redes de economia solidária. Micro-soluções locais, pequenos gestos de boa vontade, solidariedade, fé... E também os grandes movimentos sociais, organizados contra os latifúndios, contra as grandes empresas poluidoras, contra as guerras movidas pelo capital, contra a poluição do meio-ambiente, contra a escravidão e todo o tipo de opressão.
Aliás, percebi que se amplia, cada vez mais, a noção de que as lutas sociais e as ecológicas não podem seguir dissociadas. Defender o meio ambiente sem pensar na erradicação da pobreza é falácia, da mesma maneira que a luta por justiça social que ignore o conceito de sustentabilidade do planeta é pura ignorância.
Enfim, percebi que as forças como as que atuaram no Fórum Social Mundial, com todos os seus embates e contradições, são como uma obra em pontilhismo: se nós olharmos de perto, veremos uma confusão irritante de pigmentos, aparentemente sem sentido, superficialmente caótica. Mas se nos afastarmos lentamente (e esse afastamento só é possível com a passagem do tempo), uma forma vai surgir, como mágica, frente a nossos olhos. Entretanto, é impossível enxergá-la agora: o quadro está bem à frente do nosso nariz, estamos imersos demais dentro dele para perceber. E os pintores desse quadro, os povos do mundo, os movimentos sociais, usam o pincel da boa vontade e as cores da insatisfação... Só o passar dos anos nos permitirá olhar, com nitidez, tudo o que se está construindo a partir de eventos como esse. Mas a melhor coisa, creio eu, não é ficar só esperando pra ver qual forma irá constituir o mundo futuro. O ideal é pegarmos nossa boa vontade e nossa revolta e nos juntarmos ao coro da humanidade ofendida.
Pois enquanto um só Ser Humano estiver sob a bota da opressão e a Natureza sofrer com nossa ação predatória, não haverá redenção para a Humanidade. Entretanto Ela também estará definitivamente perdida, no dia em que ninguém tiver voz para gritar contra a injustiça e a violência que atinge nossos irmãos e nossa Mãe-Terra.
|