Santo André - São Paulo - Brasil
Edição Nº 11 - Jan/fev/março de 2009
 
Blog SINPRO ABC
 
 
 
// INTERNACIONAL
 

60 anos da Revolução Chinesa e 50 da Revolução Cubana:

Revolução e Libertação Nacional

 

Por José Rodrigues Máo Junior*

 

Revolução Cubana

 

A Revolução Russa: matriz ideológica dos movimentos de Libertação Nacional do Século XX

Em 2009 completam-se cinco décadas do triunfo da Revolução Cubana e seis da Revolução Chinesa. Para o historiador, este distanciamento temporal de cerca de meio século do triunfo desses movimentos nos permite realizar reflexões mais completas.
Embora essas duas revoluções tenham ocorrido em sociedades completamente distintas e em diferentes continentes, indiscutivelmente esses dois processos revolucionários inscreveram-se dentro de um movimento revolucionário mais amplo, marcado pela resistência dos povos oprimidos da Ásia, África e América Latina diante do Imperialismo, e tiveram como guia e inspiração, a grande Revolução Russa de Outubro de 1917.
O gigantesco Império Russo do tempo dos Czares não era apenas um Estado multinacional situado em dois continentes (Europa e Ásia): era também uma sociedade dual, onde “ilhas” de rápida modernização industrial conviviam com um vasto, atrasado e subdesenvolvido interior agrário. Surpreendentemente ainda no início século XX, a frágil estabilidade política do Império era garantida por um regime com claras características absolutistas.
Vítima de suas contradições internas, agravadas pela crise decorrente de sua desastrosa participação na I Guerra Mundial, o regime czarista ruiu estrepitosamente. Mas o que se consolidou não foi um regime democrático-burguês que se tentou estabelecer a partir a Revolução de Fevereiro de 1917. O caráter autocrático do czarismo havia impedido a formação de uma classe burguesa poderosa e politicamente independente, capaz de cumprir o seu papel histórico e levar adiante uma revolução burguesa. Diante da clara debilidade política da burguesia russa, o poder escapou-lhe às mãos em outubro daquele mesmo ano. Em meio ao mais completo caos político-institucional, o apoio da massa de camponeses, operários, soldados e marinheiros deslocou-se para a única força política capaz de empalmar o poder: o Partido Bolchevique.
Após assumir o poder, os bolcheviques tiveram que enfrentar uma terrível Guerra Civil que se estendeu até 1920, contra as tropas contra-revolucionárias do “Exército Branco”, apoiado por tropas britânicas, francesas, estadunidenses, japonesas, polonesas, sérvias, gregas e romenas. No momento mais desesperador dessa guerra, os bolcheviques chegaram a controlar apenas uma estreita franja de terra – sem saída para o mar – no centro e norte da Rússia. A vitória do “Exército Vermelho” somente foi possível em decorrência do apaixonado apoio das massas de camponeses e operários à causa bolchevique.
Consolidados no poder após a vitória na Guerra Civil, os comunistas russos assumem uma tarefa ainda mais assombrosa: reconstruir e modernizar um país economicamente atrasado, predominantemente agrário e destruído pela guerra. A burguesia russa havia sido incapaz de cumprir o seu papel histórico e desenvolver plenamente as forças produtivas de seu país. Agora, paradoxalmente, uma outra classe social teve de incumbir-se das tarefas não realizadas pela burguesia.
O rubro eco da Revolução Bolchevique e da consequente formação do primeiro Estado Operário – a URSS – alcançou os trabalhadores de todo o mundo. O caráter dual da antiga sociedade russa, ao mesmo tempo europeia e asiática, desenvolvida e atrasada, colonialista e colonial, contribuiu para que o exemplo da revolução ocorrida naquele país influenciasse tanto a classe trabalhadora dos países capitalistas avançados, quanto à dos povos coloniais. No que tange a esses últimos, a ampla divulgação dos escritos teóricos dos bolcheviques, particularmente a apaixonada defesa de Lênin quanto ao direito à autodeterminação das nacionalidades oprimidas, além da obra “O Imperialismo: fase superior do capitalismo”, forneceu parte do instrumental teórico básico para os nascentes movimentos de libertação nacional da Ásia, África e América Latina.
Entretanto, o mais impressionante aos olhos do resto do mundo foi o estrondoso sucesso dos comunistas soviéticos na área econômica. Entre 1929 e 1940, o volume da produção industrial soviética praticamente triplicou. Em 1913, a Rússia produzia em torno de 3,6% da produção industrial do mundo. Em 1929, a URSS produzia aproximadamente 5%, e em 1938, 18%.  É importante destacar, ainda, que essa acelerada expansão da economia soviética ocorreu justamente quando o mundo capitalista vivia o grave período de depressão econômica após 1929. Para grande parte dos observadores da época, o modelo soviético de Economia Planificada parecia ser uma forma superior de gestão econômica e, sobretudo, particularmente indicado para o rápido desenvolvimento industrial de economias de países atrasados.
Após da fundação da III Internacional Comunista (Komintern), em 1919, o modelo de organização dos bolcheviques passou a ser a inspiração da maior parte dos revolucionários de todo o mundo. Foram fundados Partidos Comunistas na maior parte dos países. Surgiu um novo tipo de militância revolucionária. Em uma guerra de vida e morte entre o socialismo e o capitalismo só haveria lugar para “soldados”, ou em outras palavras, para militantes profundamente disciplinados, leais e devotados à causa revolucionária, aquilo que Lênin muito bem definiu como os “mortos sob licença”.
Dessa forma, a Revolução Bolchevique forneceu não apenas a ideologia, mas também uma nova forma de organização revolucionária e um novo modelo de sociedade a ser construída.

A Revolução Chinesa e o restabelecimento do Tiang Ming

 

A maior e mais bem estruturada sociedade da antiguidade teve a sua estabilidade social abalada diante da penetração comercial da Europa no século XIX. Nos dizeres de Marx e Engels: os “preços baixíssimos das suas mercadoria são a artilharia pesada com que deita por terra todas as muralhas chinesas” 1.
Para romper a obstinada resistência do Imperador em fazer concessões comerciais aos britânicos, esses recorreram ao contrabando de uma mercadoria que tinha grande aceitação no mercado chinês: o ópio. O tráfico de ópio funcionou como ponta de lança, atrás da qual seguiam as demais mercadorias industrializadas do ocidente. Observado os malefícios que tal mercadoria produzia em sua população, tropas imperiais atacaram navios britânicos e jogaram o carregamento de ópio no mar.
O governo britânico, indignado com esse atentado à liberdade de comércio (o direito de traficar drogas livremente), entrou em conflito com a China. Ocorreu então a Primeira Guerra do Ópio (1839-42). Essa primeira derrota militar do Império chinês foi secundada por inúmeras outras, entre elas a Segunda Guerra do Ópio (1856-60), a Russo-Chinesa de 1858, a Franco-Chinesa (1884-85), a Sino-Japonesa de 1894-95 e a Sino-Alemã de 1898. O Império Chinês foi obrigado a aceitar uma série de concessões financeiras e territoriais, praticamente cedendo aos estrangeiros a soberania das regiões mais ricas da China. Rapidamente a china foi transformada em um satélite do mundo industrial.
Deve-se perguntar, entretanto, como foi possível um relativamente modesto efetivo de canhoneiras e de tropas estrangeiras conseguir submeter o grande Império Chinês, que contava com cerca de um quinto da população da Terra. A resposta deve ser procurada nas vastas e populosas áreas rurais da China.
A ética do confucionismo garantia a legitimidade do poder imperial. Segundo essa ética, o Imperador era detentor do Mandato Celestial (Tiang Ming). Entretanto, se o Imperador se mostrasse inepto, os Céus lhe retirariam o poder, ocorrendo então a Ruptura do Mandato Celestial (Ge Ming). Segundo a lógica confuciana, o Ge Ming era prenunciado por “sinais”, tais como prodígios no céu, catástrofes climáticas, corrupção na burocracia e agitação agrária. Destes “sinais” devemos nos ater ao que nos parece mais importante: a agitação agrária.
A história da China foi profundamente marcada por constantes rebeliões camponesas. Em alguns casos excepcionais estas rebeliões conseguiram derrubar o poder imperial. Não obstante, a queda de uma dinastia jamais significou o fim do sistema imperial. Uma vez deposto o Imperador, constituía-se uma nova dinastia, não raro fundada a partir do principal líder da rebelião. Desta forma, as rebeliões camponesas, longe de ameaçar a tradicional sociedade chinesa, estavam perfeitamente integradas a ela. Serviam para depor um Imperador inepto e alçar ao poder um novo, que restabelecesse os benefícios do Mandato Celestial.
A penetração comercial europeia rompeu a frágil estabilidade social no campo. A produção artesanal entrou em declínio diante da concorrência dos produtos industrializados, e as indenizações de guerra pagas pelo Império aos estrangeiros significaram um contínuo aumento de impostos. Além disto, as novas necessidades de consumo por parte da elite chinesa somente poderiam ser satisfeitas mediante o aumento da exploração do campesinato. Consequentemente, a penetração comercial estrangeira na China coincidiu com uma série de rebeliões camponesas. A maior delas foi a Rebelião Taiping (1850-66), que chegou a controlar cerca de metade do território chinês, estabelecendo um “Reino Celestial de Paz Universal” com a capital em Nanquim.
Visto por esse prisma, podemos perceber que o Imperador estava diante de dois inimigos: de um lado os “diabos estrangeiros” e de outro o seu próprio povo. Não é difícil perceber que o perigo mais iminente eram as rebeliões camponesas que se alastravam pelo Império. Em face deste quadro, o Imperador adotou uma política de capitulação em relação às potências estrangeiras para ter as mãos livres para reprimir a agitação interna. Deve se destacar ainda que a Rebelião Taiping foi sufocada a custa de cerca de 20 milhões de mortos.
A crise do Império chinês do século XIX teve o seu epílogo em 1911. Neste ano ocorreu uma Ge Ming singular, que não inaugurou uma nova dinastia, mas sim uma República. Este movimento expressava os anseios de uma nascente intelectualidade urbana que propugnava a modernização da China em termos ocidentais. Era liderado pelo Partido Nacionalista da China (Kuomintang), e tinha como principal liderança política o médico Sun Yat-Sen.
Entretanto, a República Chinesa teve curta duração. Em 1913 o general Yuan Shikai perpetrou um golpe de Estado que pôs fim a esta experiência Republicana. A partir de então, o poder se fragmentou na China, que passou a ser governada pelos Senhores da Guerra, chefes militares com poderes políticos locais.
Em 1919, Sun Yat-Sen retornou do exílio, reorganizou o Kuomintang e fundou a República do Sul da China em 1921, com capital em Cantão.Tinha como estrela polar de sua política, a aliança com a URSS, o modelo de modernização a ser seguido. Por este motivo aliou-se ao recém-fundado Partido Comunista da China (Kung Chan Tang). Liderou a primeira fase da Guerra Civil Revolucionária (1924-27), contra os Senhores da Guerra, com o intuito de reunificar a China.
Sun Yat-Sen morreu em 1925, sendo sucedido pelo general Chiang Kai-Shek, que tinha estreitas relações não só com a alta burguesia chinesa, mas também com o Governo dos EUA. Ambos, por óbvios motivos, não viam com bons olhos a aliança do Kuomintang com os comunistas. Em 1927, uma vez vencidos os Senhores da Guerra, Chiang Kai-Shek rompeu a aliança com o Partido Comunista, assassinando mais de 5 mil militantes em Xangai (alguns foram atirados vivos em caldeiras de locomotivas). A ruptura entre o Kuomintang e os comunistas marcou o início de uma Segunda Guerra Civil Revolucionária (1927-37).
Nesta época, Mao Tse-Tung dirigia uma escola de quadros para o movimento camponês no sul da China. Ainda no final de 1927, organizou um levante em Hunan, duramente reprimido pelas tropas do Kuomintang. Refugiou-se nas montanhas de Jinggang, próximas a província de Jiangxi, onde conseguiu agrupar as tropas fiéis aos comunistas, organizando os Soviets de Jiangxi.
Expulsos das cidades, os comunistas estabelecem profundos laços políticos com o campesinato. Os Soviets de Jiangxi passaram a ser o centro da resistência comunista, e conferiram a Mao Tse-Tung uma posição de destaque. Entretanto as bases comunistas em Jiangxi estavam sob constante fogo inimigo. Suportaram quatro campanhas de cerco e aniquilamento movidas pelas tropas do Kuomintang. Em 1934, foi organizada uma quinta campanha, com mais de um milhão de soldados apoiados por artilharia e aeronaves. Diante dessa ofensiva, não restou outra alternativa à liderança comunista senão a de efetuar uma retirada estratégica. Esse episódio ficou conhecido como A Longa Marcha, uma retirada de cerca de 10 mil quilômetros até o noroeste da China, efetuada sob a perseguição e fogo inimigo. Dos aproximadamente 100 mil soldados vermelhos que iniciaram a marcha, somente cerca de 9 mil conseguiram atingir Yan´nam um ano depois.
O Japão, que já ocupava o norte da China (Manchúria) desde 1931, iniciou a invasão da maior parte do restante do território chinês em 1937. Iniciou-se assim uma nova fase da história chinesa: a de Guerra de Resistência contra o Japão (1937-45). A atitude das tropas do Kuomintang e as dos comunistas em face desta invasão foram diametralmente opostas. Enquanto o Exército Popular de Libertação (comunista) sustentava uma decidida resistência ao invasor sob a forma de guerra de guerrilhas, o exército do Kuomintang assumia uma postura contemplativa ou até mesmo de colaboração diante dos japoneses. Essa atitude refletia os interesses da classe dominante chinesa, que preferia o domínio japonês aos comunistas. A partir de então, aos olhos do povo, os comunistas passaram a ser vistos como os mais verazes defensores da nação chinesa, e o termo Hanjan – traidor da China – deixou de ter uma conotação exclusivamente patriótica, passando a ter também um sentido de classe.
Com a retirada japonesa após o final da II Guerra Mundial, se estabeleceu um vácuo político que foi rapidamente preenchido pelos exércitos do Kuomintang (que ocuparam todas as cidades) e o Exército Popular de Libertação (que controlava a maior parte das áreas rurais). Tentou-se a formação de um Governo de coalizão, que fracassou devido às exigências feitas pelo Kuomintang de que os comunistas entregassem as armas. A vívida lembrança do massacre de Xangai impediu que os comunistas cometessem tal loucura, o que certamente equivaleria a um suicídio. Em função desse impasse, a China mergulhou numa Terceira Guerra Civil Revolucionária (1945-49).
Os comunistas, fortalecidos pela sua brilhante atuação na II Guerra Mundial, rapidamente consolidaram o controle das áreas rurais, colocando a maioria das cidades chinesas sob cerco. Com o tempo, esse cerco foi se apertando e nas principais cidades chinesas começaram a ocorrer constantes agitações operárias e estudantis. Paulatinamente as cidades chinesas vão caindo nas mãos dos comunistas e Chiang Kai-Shek fugiu para a Ilha de Taiwan.
Em Primeiro de Outubro de 1949, as tropas do Exército Popular de Libertação marcharam vitoriosas. Nesse mesmo dia, o camarada Mao Tsé-Tung proclamou a fundação da República Popular da China. Mais de um século transcorreu desde que as antigas estruturas do sistema imperial entraram em crise diante da penetração estrangeira. Muitas décadas se passaram desde que o Império ruiu e mergulhou a China no mais completo caos e guerra civil. Muitos anos se passaram sem que a China tivesse um Governo que exercesse a soberania sobre todo o seu território. Pela primeira vez depois de muitas décadas, o Tiang Ming estava restabelecido. Mas, diferentemente dos governos anteriores, não eram os mandarins imperiais ou títeres de potências estrangeiras que governavam: agora quem estava no poder era o povo.

1 MARX, Karl; ENGELS, Friederich. Manifesto do Partido Comunista. Lisboa: Avante, 1984, 2 ed., p. 64.
 

O triunfo da Revolução Cubana

Cuba, 1º de janeiro de 1959. Colunas do Ejército Rebelde comandadas por Camilo Cienfuegos e Che Guevara avançaram rumo a Havana após conquistar a cidade de Santa Clara, na região central da Ilha. O ditador Fulgencio Batista fugiu do país com as malas devidamente recheadas de dólares, enquanto um general anti-batistiano – Eulogio Cantillo – intentava um golpe militar. A manobra deste último era astuciosa: pretendia ocupar o vácuo político-institucional decorrente do colapso do regime e impedir a tomada do poder pelos revolucionários.
Naquele momento, Fidel Castro, o Comandante em Chefe do Ejército Rebelde, que recentemente havia conquistado a cidade de Palma de Soriano, mantinha Santiago de Cuba sob cerco. Ao inteirar-se dos acontecimentos, Fidel, através da Rádio Rebelde, lançou uma proclamação convocando o povo cubano a uma greve geral revolucionária. O povo aderiu entusiasticamente ao chamado, lançando-se às ruas, assaltando os corpos repressivos, detendo torturadores. Naquele dia, o povo converteu-se num gigantesco exército e ator decisivo do triunfo revolucionário.
Historicamente, essa data se diferenciou de um outro evento que havia ocorrido em Cuba há exatos 60 anos. No dia 1º de janeiro de 1899, Cuba tornou-se independente. Entretanto, sobre as antigas fortalezas espanholas não foram hasteadas as bandeiras cubanas, mas a temível bandeira de listras e estrelas dos EUA.
Nenhum povo do continente americano lutou por sua independência em condições tão difíceis quanto o povo cubano. Foram duas guerras de independência: a Guerra dos Diez Años (1868-1878), e a Segunda Guerra de Independencia (1895-98). Neste último conflito, morreram cerca de 80 mil soldados espanhóis e cerca de 400 mil cubanos. Tendo em vista que a população cubana era estimada em torno de 1,5 milhão de habitantes, poderíamos afirmar que essa guerra foi o Vietnã do século XIX, segundo expressão de Fidel Castro.
Em 1898, quando as tropas independentistas cubanas praticamente já controlavam a maior parte das áreas rurais de Cuba, os EUA intervieram no conflito – supostamente para “ajudar os cubanos” – e de maneira oportunista se apoderaram do país. O primeiro Governo “cubano” foi o da intervenção militar estadunidense que perdurou até 1902.
Durante o Gobierno Militar do EUA, foi criada a maioria dos mecanismos institucionais e econômicos que garantiram o domínio neocolonial sobre Cuba. Como anexo a Constituição cubana, foi imposta a Enmienda Platt, que dava o direito aos estadunidenses intervirem militarmente na Ilha, e ainda o direito a uma base naval em Guantánamo. O Gobierno Militar inaugurou também a corrupção e a fraude eleitoral em Cuba para eleger alguém de confiança como Presidente. Tratava-se de Tomás Estrada Palma, que tinha dupla cidadania e foi eleito sem sequer estar em território cubano.
A história política de Cuba na primeira metade do século XX pode ser resumida, a grosso modo, numa sucessão de governos oligárquicos, permeados por ditaduras e intervenções militares dos EUA. Entretanto, o principal mecanismo de sujeição de Cuba ao imperialismo não era o militar, mas o econômico.
Ainda no século XIX, os interesses da burguesia açucareira cubana e de empresas estadunidenses se entrelaçavam. Esta situação aprofundou-se durante o Gobierno Militar que, através de Ordens Militares, expropriou terras de grande parte do campesinato. Desta forma, empresas dos EUA – e também latifundiários cubanos - se apropriaram de vastas extensões de Cuba. Mecanismos comerciais e alfandegários garantiam vantagens para o açúcar produzido em Cuba no mercado estadunidense. Desta situação se beneficiavam principalmente as empresas estadunidenses estabelecidas na Ilha, mas também, na qualidade de sócios menores, a burguesia açucareira cubana.
Dentro desse quadro, a possibilidade de realização de lucros por parte do setor mais poderoso da burguesia cubana estava atrelada a manutenção dos mecanismos de sujeição política e econômica em relação aos EUA. Em troca da garantia para o açúcar cubano no mercado estadunidense, o Governo cubano teve que fazer uma série de concessões que obstaculizaram o desenvolvimento de outras áreas da economia. Crescentemente Cuba tornou-se um país monoprodutor de açúcar, que exportava para um único mercado: os EUA.
Em relação às camadas médias urbanas, essa deformação da economia reduzia as suas possibilidades de ascensão, ou até mesmo de manutenção de seu status quo. Por parte do proletariado (em grande parte rural), o caráter sazonal da economia açucareira limitava o acesso a empregos estáveis. Quanto ao campesinato, esse era crescentemente vítima de expulsões de suas terras, para dar espaço ao constante avanço dos latifúndios para novas áreas de cultivo.
Diante da postura neocolonial da classe dominante cubana, não é de se estranhar que a bandeira de luta pela emancipação nacional acabasse empalmada pelos setores descontentes da sociedade cubana. Cedo o proletariado cubano soube vincular a luta pela emancipação social à luta pela emancipação nacional. O Partido Comunista de Cuba soube incorporar estas duas dimensões da luta desde a sua fundação em 1925. Rapidamente colheu os seus frutos: antes da Revolução, tornou-se o terceiro maior Partido Comunista do continente.
Em 1952, Cuba estava submetida a uma nova ditadura. No ano seguinte, um grupo de jovens, determinados a enfrentar a tirania com armas em punho, intentou tomar o Quartel Moncada, em Santiago de Cuba. A operação fracassou, alguns dos jovens caíram em combate, e muitos outros foram assassinados após a captura. Os que sobreviveram foram presos, julgados e sentenciados. Mais tarde foram anistiados e reagrupados no exílio em terras mexicanas. Ainda no México, o médico argentino Che Guevara incorporou-se ao grupo liderado por Fidel Castro, cujo objetivo era desembarcar em Cuba e reiniciar a luta contra a ditadura de Fulgencio Batista.
No México, em 25 de novembro de 1956, 82 expedicionários embarcaram no iate Granma – de apenas 12,5 metros de comprimento. Desembarcam em Cuba no dia 2 de Dezembro. Depois de um primeiro combate desfavorável, o grupo foi reduzido a cerca de 15 homens dispersos, alguns desarmados, outros feridos. Não obstante, a região do desembarque ocorreu próximo a região da Sierra Maestra, na região oriental da Ilha, onde existia um mobilizado campesinato que resistia à geofagia dos latifundiários. Os sobreviventes do Granma foram acolhidos no seio desta população camponesa, protegidos e alimentados. A partir deste pequeno grupo de sobreviventes, e com a incorporação de camponeses da região, rapidamente se desenvolveu uma guerrilha na Sierra Maesta. Surgiu assim, o Ejército Rebelde.
Depois de algumas vitoriosas escaramuças iniciais, o Ejército Rebelde cresceu em número, a ponto de criar um território livre na Sierra. No início de 1958, a guerrilha contava com um efetivo de aproximadamente 300 homens. O ditador Fulgencio Batista, com intuito de esmagar o movimento, organizou uma ofensiva de cerco e aniquilamento em maio daquele ano. Esta ofensiva contava com cerca de 10 mil homens, apoiados por artilharia, blindados e aeronaves. Durante os 76 dias desta ofensiva, combateu-se com ferocidade, e surpreendentemente, para completa desmoralização do regime de Batista, o Ejército Rebelde saiu-se vitorioso.
A partir de então, a guerrilha passou a atuar fora de suas bases na Sierra, colocando sempre as forças repressivas em xeque. Alguns meses mais tarde, o ditador, totalmente desmoralizado, fugiu do país em 1º de janeiro de 1959.
No dia seguinte, Fidel Castro à frente da Coluna nº 1 marchou pelas ruas de Santiago de Cuba, ocupando simbolicamente o Quartel Moncada, local onde havia desfechado a sua primeira ação em 1953. Naquela noite, em meio ao júbilo popular, fez o seu primeiro discurso após a queda de batista. Neste discurso, além de referências históricas sobre as duas datas, 1º de janeiro de 1899 e de 1959, Fidel também se referiu ao inevitável conflito com os EUA:

“Desta vez não se frustrará a Revolução. Desta vez, para sorte de Cuba, a Revolução chegará de verdade até o final; não será como em 1895, quando vieram os americanos e fizeram-se donos do país; intervieram na última hora e depois nem sequer a Calixto García, que havia lutado por 30 anos, deixaram entrar em Santiago de Cuba; ... Nem Ladrões, nem traidores, nem intervencionistas, desta vez sim, é uma Revolução ...”

 

Prof. Dr. José Rodrigues Máo Júnior
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo – IFSP
Campus Cubatão

Autor de: A Revolução Cubana e a Questão Nacional (1868-1963) (Núcleo de Estudos d’O Capital).  Co-autor de: A Revolução Chinesa: até onde vai a força do dragão? (Scipione).

 
 
Revista O PROFESSOR - Todos os direitos reservados ao Sindicato dos Professores do ABC

Redação: Sindicato dos Professores do ABC - Rua Pirituba, 61/65 - B. Casa Branca - Santo André - São Paulo - Brasil
www.sinpro-abc.org.br - E-mail: imprensa@sinpro-abc.org.br