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Edição Nº 11 - Jan/fev/março de 2009
 
Blog SINPRO ABC
 
 
 
// CULTURA
 

Os cem anos da portuguesinha com coração brasileiro

Centenário de Carmen Miranda é comemorado com lembranças e homenagens à estrela que levou o nome do Brasil para o mundo

 

Carmen Miranda

O que é que a baiana tem? Quem respondeu e representou, com muito charme e singularidade a mulher brasileira em todo mundo, sequer nasceu na Bahia ou muito menos no Brasil. Maria do Carmo Miranda da Cunha nasceu no Distrito do Porto, em Portugal, no dia 9 de fevereiro de 1909.
Como ‘Maria do Carmo’ era conhecida pelos familiares, porém, como Carmen Miranda foi reconhecida internacionalmente, não só como a mulher das roupas coloridas e das frutas na cabeça, mas, também, como uma das maiores cantoras populares das décadas de 30 a 50. No livro "Carmen Miranda - A Cantora do Brasil", Abel Cardoso Junior, jornalista e historiador explica: "O nome ‘Carmen’ trata-se de abreviação de Maria del Carmen, que é o mesmo que Maria do Carmo”.

A carreira

Carmen veio para o Brasil em 1910, com a mãe Olinda. Segundo o livro de Abel Cardoso Jr., Olinda também era dona de uma linda voz e Carmen teria herdado da mãe a vocação artística.
Aos vinte anos, Carmen cantou no Instituto Nacional de Música, Rio de Janeiro. Na platéia, Josué de Barros, compositor baiano, assistiu a apresentação e se interessou pela carreira da cantora. No mesmo ano, em 1929, Carmen se apresentou na Rádio Sociedade e, poucos meses depois, gravou o primeiro disco no selo Brunswick com as canções Não Vá Sim´bora e Se o Samba é Moda.
O ano de 1930 foi o ano da consagração. Em fevereiro, a marchinha “Ta hi” foi lançada e os foliões do carnaval cantaram “Yá Yá Yô Yô”. Em junho, o jornal “O País” divulgou uma entrevista com a Carmen e a intitulou como a maior cantora popular brasileira.
Em março de 1933, estreou o primeiro filme, “A Voz do Carnaval”, no Cine Odeon. Em agosto do mesmo ano, César Ladeira assumiu a Rádio Mayrink Veiga, com quem Carmen assinou contrato de dois anos. César batizou a cantora como “Ditadora Risonha do Samba” e com aquele que se tornou um dos mais marcantes apelidos de Carmen: A Pequena Notável. Tempos depois, Carmen passou a ser chamada, também, por “Embaixatriz do Samba”.
Em 1939, destaca Abel Cardoso, Carmen gravou com Dorival Caymmi “O que é que a baiana tem” e estreou o filme “Banana da Terra”. A partir de então, o figurino de baiana se tornou a marca da cantora, pela qual seria lembrada eternamente, assim como sua voz e performance nos palcos.

 

O mundo conhece o que é que a baiana tem!

Em maio de 1939, Carmen chegou a Nova Iorque.

“29 de maio de 1939: Estreia na revista ‘Streets of Paris’, em Boston, com êxito estrondoso. Já popular, é homenageada no Jockey Club da cidade com um páreo que leva seu nome. Dizia a imprensa: ‘sua graça pode ser comparada a dos ídolos de um antigo templo asteca (sic)’”
(Abel Cardoso Junior - "Carmen Miranda - A Cantora do Brasil")

No ano seguinte, a Pequena Notável esteve na Casa Branca e se apresentou para o presidente Roosevelt. Com a ascensão na carreira internacional, o público brasileiro recebeu Carmen friamente no Cassino da Urca e acusaram-na de ter se americanizada. Essa polêmica fez com que a cantora gravasse uma série de canções em resposta às críticas de americanização.
Sobre a paixão pelo país e pelos costumes brasileiros, Carmen desabafou: “Nasci em Portugal, mas me criei no Brasil e, portanto, considero-me brasileira. O local do nascimento não importa, nem sequer o sangue. O que importa é o que os americanos chamam de ‘environment’, a influência do país e dos costumes que nos geraram. Da minha parte, sou mais carioca, mais sambista de favela, mais carnavalesca do que cantoras de fados. O sangue tem uma certa importância, mas só no temperamento, não na maneira de sentir as coisas”. A frase foi dita à amiga e jornalista Dulce Damasceno de Brito, que a publicou no livro “O ABC de Carmen Miranda”, com outras polêmicas declarações. “Adotei o Brasil (ou ele me adotou) como país de estimação e afinidades e também gosto muito dos States, onde fui realmente consagrada, embora estrangeira. Sinto muito em dizer, mas Portugal nada me significa, apesar do amor por meu país”, completou Carmen.
Carmen foi a primeira sul-americana a deixar a marca das mãos e sapatos na calçada do Teatro Chinês de Los Angeles, em 1941, e, dez anos mais tarde, foi a artista de show que mais ganhou dinheiro nos Estados Unidos.
Em 1953, a Europa também recebeu os shows de Carmen Miranda. Em outra passagem do livro de Dulce, Carmen relata: “Sou orgulhosa da figura que consegui implantar no mundo do ‘show bussiness’ como a baiana do Brasil, minhas roupas, sapatos, turbantes e balangandãs. Também tenho orgulho danado de ter sido a pessoa que mais faturou nos Estados Unidos em 1944, segundo levantamento do Departamento do Imposto de Renda. Passei à frente de outros artistas e até do presidente! Mas, pessoalmente, não sou ‘orgulhosa’ no sentido especial da palavra. Na verdade, acho que sou até humilde demais, às vezes”.

 

A morte

“Tenho pavor de morte em hospital, com doença incurável. Peço a Deus que, quando chegar a hora, me fulmine com um ataque cardíaco para que eu não enfrente ‘essa senhora’ largada em uma cama, cheia de dores”, dizia Carmen. Foi o que aconteceu.
Aos 46 anos de vida, a cantora fazia uso de diversos remédios - estimulantes e calmantes - para suportar a intensa rotina de trabalho. Muitas vezes, o álcool e o cigarro acompanhavam a medicação. O uso frequente desses remédios gerou uma série de efeitos colaterais e dependência química, o que debilitou a saúde de Carmen Miranda.
No dia 5 de agosto, em Beverly Hills, onde morava, a Pequena Notável se divertiu com alguns amigos e foi para o quarto, local onde faleceu, vítima de uma parada cardíaca.
Para a despedida, mais de 60 mil pessoas estiveram presentes no velório realizado na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, em 12 de agosto. No dia seguinte, o sepultamento de Carmen Miranda reuniu entre 500 mil e 1 milhão de pessoas no Cemitério São João Bastista.
Abel Cardoso destaca em seu livro: “Foi o mais concorrido de toda a história do Rio, debaixo de profunda comoção popular, apesar dos 15 anos sem nenhuma apresentação pessoal de Carmen no Brasil e já transcorridos 8 dias de seu falecimento. O Hospital Souza Aguiar atendeu a 182 casos de crise emocional”.

Frases

Confira algumas frases publicadas por Dulce Damasceno de Brito, no livro “O ABC de Carmen Miranda”.

Abandono
“A maior humilhação para uma mulher é ser abandonada pelo homem que ama. O homem recupera-se mais depressa, se o caso é oposto, porque não quer dar o braço a torcer para os amigos. A mulher não: sua sensibilidade e fraqueza ficam estampadas no seu rosto, no seu olhar, nos seus gestos. É triste.”

Beleza
“A beleza é fundamental para mim. Não importa que digam que fulano ou beltrano é ‘bonito por dentro’. Se for feio, fisicamente, já não gosto. Tanto o homem, como a mulher, devem ser bonitos ou tentar sê-lo. Observo muito as mãos, os olhos. O homem mais bonito que já vi foi Tyrone Power, depois, meu amado John Payne. Das mulheres, acho que foi Greta Garbo – sem pintura alguma, traços puros e fortes, quando veio me cumprimentar no meu camarim no Teatro Broadhurst, em New York. Que emoção! Eu, uma portuguesinha de coração brasileiro, sambista das rodas cariocas, uma Zé ninguém, recebendo aquela mulher maravilhosa, a Dama das Camélias, com aquela voz inesquecível!”

Casamento
“Mesmo depois dos quarenta, ainda sou tão ‘square’ (quadrada mesmo) que acredito no casamento de igreja, de noiva e tudo o mais. É uma cerimônia linda, inesquecível. Mesmo que seja para se divorciar depois...”

Depressão
“Uma palavra que diz tudo e que conheço tão bem.”

Evita
“Admirei muito esta mulher, que foi a força-motriz de Juan Perón na Argentina. Afinal, todos os homens precisaram de mulheres inspiradoras. E, embora amada por alguns e odiada por outros, Evita foi, realmente, uma grande figura na história da América do Sul.”

Independência
“A palavra-chave do mundo! Só que, da minha parte, nunca consegui obtê-la totalmente. Até hoje ainda dependo da opinião da minha mãe, do meu marido, do líder do antigo Bando de Lua (Miranda´s Boys), Aloysio de Oliveira, dos diretores de cinema, dos meus agentes da William Morris (...)”.

Lembrança
“Sou nostálgica por natureza, embora me machuque muito ouvir meus discos antigos como Taí e Camisa Listrada, que me fazem chorar. Mas são lágrimas gostosas, não amargas. Lembram-me uma Carmen que não existe mais – cheia de sonhos e planos.”

Sorte
“Todo mundo me pergunta como venci na minha carreira. Acho que foi pura sorte adotar um estilo diferente de sambista e, depois, Hollywood.”


“Adotei o Brasil (ou ele me adotou) como país de estimação e afinidades e também gosto muito dos States, onde fui realmente consagrada, embora estrangeira. Sinto muito em dizer, mas Portugal nada me significa, apesar do amor por meu país”

 
 
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